Este é o primeiro trabalho postado e é de autoria do grupo composto pelos seguintes componentes:
Matheus da Paz n°1638
Eunice n°1654
Fernanda n°1652
Kamila Fuchs n°2692
Jéssica Hind n°1627
Marcella n°2227
ANÁLISE DO CONTEÚDO DO COTIDIANO BRASILEIRO NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX:
Presença e Influência Inglesas na Sociedade Brasileira
Ao assistirmos à comédia “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil”, com direção de Carla Camurati, percebemos que a diretora toma proveito de seu filme, que se passa no início do século XIX e trata da vida da princesa Carlota Joaquina, para fazer diversas críticas aos fatos ocorridos em tal época, entre eles a subordinação portuguesa aos interesses político-econômicos da então potência capitalista, Inglaterra.
Em meados de 1808, D.João VI, chegou ao Brasil, o qual, não por acaso, foi escolhido como destino da fuga – da invasão dos exércitos bonapartistas –, pelos ingleses, por ser a mais rica das posses lusitanas. Uma das primeiras ações joaninas foi a Abertura dos Portos às Nações Amigas – através dos conselhos de Lorde Strangford, interpretado por Chris Hieatt –, que favorecia diretamente a Inglaterra. Em 1810, foi firmado um tratado entre Brasil e Inglaterra, a qual passou, pelo tratado, a ter 15% apenas de taxa alfandegária para entrada de seus produtos no Brasil, além de: os comerciantes ingleses podiam pagar os impostos à Alfândega em condições iguais às dos portugueses, com três, seis ou nove meses de prazo, usando letras de câmbio; um Juiz Conservador da nação inglesa julgava os súditos britânicos de acordo com as leis da Inglaterra; era permitida a liberdade de religião, com igrejas e capelas de outros credos e cemitérios separados.
Sem hesitações, os ingleses convenceram-se de que encontrariam, no Brasil, excelente oportunidade para a expansão de sua indústria e de seu comércio e aproveitando-se, como bons realistas, das circunstancias favoráveis, começaram a chegar ao Brasil - em especial, para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Em 1808, representações comerciais inglesas (firmas, bancos e empresas concessionárias) já estavam instaladas no Rio de Janeiro e, com o tempo, os portos brasileiros abarrotaram-se de produtos ingleses de todos os tipos: produtos de ferro, vidro, cobre, lã, roupas etc, sendo que muitos destes produtos ocuparam as casas e ruas brasileiras.
Se comerciantes britânicos se espalharam por nossas cidades, não escassearam os empreendimentos ingleses de mineração e, quando a tração a vapor permitiu as estradas de ferro, mais do que em qualquer outra esfera os ingleses patentearam aí a sua superioridade técnica e científica. No Brasil, os primeiros cabos submarinos, fundições modernas, estradas de ferro, telégrafos, moendas de engenho moderno de açúcar, a iluminação a gás, barcos a vapor, redes de esgoto foram, quase todos, obras dos ingleses.
O Brasil tornou-se parte do roteiro do domínio britânico e era de bom alvitre para o desenvolvimento capitalista inglês que o Brasil deixasse a dependência que tinha com Portugal, pois um país livre significava consumidores em potencial para a “Terra da Rainha”. Assim, a Inglaterra intermediou as negociações entre Brasil e Portugal para o reconhecimento daquele como nação independente, tendo ele de pagar dois milhões de libras esterlinas a sua antiga metrópole, que as usou para quitar dívidas que tinha com a nação inglesa. Tal pagamento iniciou a gigantesca dívida externa brasileira, que, com os anos, aumentaria, devido aos empréstimos feitos junto a representações inglesas, os quais só intensificavam a dependência em relação à Grã-Bretanha. Mas o Brasil ainda era escravagista e escravos significavam menos consumidores. Logo, a Inglaterra pôs-se a pressionar o Brasil para que extinguisse o tráfico negreiro, a partir dos tratados de 1810 e 1826, que só foram cumpridos com a Bill Aberdeen (1845) e ameaças de guerra, levando à promulgação da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que extinguia o tráfico.
O campo de influência inglês, com o tempo, ultrapassou o campo econômico e político, alcançando o social, influenciando o modo de vida, o vestuário, a arquitetura, a culinária, o campo jurídico, os desportos, o léxico etc. Entre os efeitos da sua influência, a Maçonaria, o júri e o habeas-corpus, o terno branco, o chá, a cerveja e o uísque, o bife com batatas, o pijama de dormir, o tênis e o futebol, o escotismo, o sanduíche etc. Isso sem contar as inúmeras palavras inglesas incorporadas à nossa língua. Influências de ordem menos material são verificadas na forma do culto religioso, na conduta de cada dia pelo hábito da pontualidade, na ética dos negócios pela venda escrupulosa de produtos.
Um exemplo de como a Inglaterra estava presente com sua soberania foi a substituição do material que era utilizado nas casas pelo vidro e ferro, que passaram a caracterizar as casas brasileiras e existiam em grande quantidade na Inglaterra. Ter vidro ou vidraças passou a ser vantagem incalculável. É plausível também lembrar da existência de um cemitério inglês em Pernambuco, o Cemitério dos Ingleses.
Assim, passamos, nós brasileiros, a primeira metade do século XIX: como muitas outras nações, fomos peões no jogo de dominação encabeçado pela Inglaterra em função de sua crescente alma capitalista (financeiro-monopolista). Foram tempos que, de certa forma, hoje, tornam este pensamento viável: emancipamo-nos de Portugal, mas, assim como nossa metrópole, fomos acometidos pela eterna “amizade” inglesa. Podemos até ser extremistas, lembrar do Grito de Independência, “Independência ou Morte!”, e refletir: se tal frase fosse uma pergunta – o que, de certa forma, é – responderíamos, depois da azarenta experiência, “Morte!”. Responderíamos de tal forma, pois foi a isso que a dita “independência” nos trouxe: uma dívida externa, com zeros que passam o campo de visão, que impediu (e impede) o investimento em áreas civis e causou muitas mortes por doença, por guerras, por desgosto!